Preciso de silêncio. Já não tenho aqueles momentos de solidão em que estar só é minha melhor companhia. Estou sempre cercado de pessoas a todo o tempo e em todos os lugares. Às vezes preciso de um tempo pra refletir acerca do que vem acontecendo. Dá-me papel e caneta. Preciso escrever-te uma poesia. Mas que me perdoes pela metalinguagem. É que a tua presença, por si só ou em pensamento visível, já encerra poesia. A poesia de teus olhos – a própria personificação do belo – que brilham como o reflexo da Lua cheia nas águas a cada noite em que me perco esperando me encontrar, te encontrar. A poesia de teus lisos cabelos negros que me encantam a cada ida e vinda, quando presos ou ao ar livre. És um verdadeiro convite irrecusável à manifestação de meus sentimentos mais singelos e profundos, implícitos por toda essa timidez miserável que faz de mim um derrotado a cada momento que tento te falar, frustradamente. Eu me suplico coragem, transformo (tento) toda minha fraqueza em força. Lastimo , dissimulo, sou fraco, sou homem. Mas não sou só mais um cara. Havia esquecido como era me sentir assim, tão inválido, tão não meu. E eu nem sei o teu nome. Imagino mil e um deles, buscando algum que te convenha, que te seja característico. Perco meu tempo. Apenas sei que não és Luiza, nem Rafaela, nem Fernanda, nem Mariana. Chamo-te apenas Amor – em meus pensamentos. Não desses amores breves e flexíveis que só existem em tese. Não desses recicláveis e infantis com prazo de validade estipulado. Apresento-me a ti como um alguém errante, como um alguém fora do contexto social e emocional desses tempos de agora. Percebo quando mudas a cor de tuas unhas. Percebo quando arrumas o cabelo de forma diferente ou quando usas algum adorno nele. Percebo quando te sentes mal, como naquele dia em que estiveste pálida, desejando por tudo estar em casa. Acredito que nem tua pessoa mais próxima tenha percebido, mas eu estava lá e Deus sabe o quanto quis te ajudar. Lembras? Percebo, és o meu estímulo de cada dia e não consigo parar de te olhar, ainda que disfarçadamente. Talvez algum dia me sinta à vontade pra te contar e rir acerca dessas coisas. E tu nem sabes o meu nome, acredito. Sei o quanto isso pode soar insanidade a teus ouvidos, mas não tenho outro algo a te oferecer – pelo menos agora – que não seja a sinceridade destas minhas palavras. As palavras desse alguém que é, hoje, tão teu e amanhã, talvez. E acreditar que me conseguiste assim, em tão pouco tempo que “te tenho”. E em perfil, diga-se de passagem, o que já foi suficiente pra me deixar tão poeticamente patético. O amor é mesmo uma companhia – ainda que de longe – e já não sei andar só pelos caminhos porque já não posso andar só. Deixa ele, não mais o escrevas e vem nessa comigo, então. E perdoa-me, por favor, essa minha incapacidade em diferenciar adjuntos e vocativo. Às vezes um copo de modernismo é bem aprazível, porém sou parnaso o suficiente pra não perder a essência de meu romantismo. Não tentes entender esse meu amor, Amor. Tão instantâneo. Ele apenas nasceu de algo que estava adormecido à espera do momento certo para se ser doado, vulcanizado. E eu ainda tenho tanto a te dizer. Senta ao meu lado e ouve comigo essa música. Dá-me aqui outro papel.