“Esse negócio de entender de uma coisa, tem que amar. Quando você ama, isso cria uma capacidade. Você se interessa pela coisa, você começa a olhar”
É, amigo Tom. Sabes bem que se te escrevo é que me encontro em profunda incompreensão de mim mesmo. É que já não mais tenho outro alguém a quem recorrer. Recolho-me a ti, em toda a sapiência de teu silêncio não-verbal. Sinto, antes de tudo, uma dor assim, literária. Essa poesia que esse Amor me cultivou no coração, que me deixa tão fora de sintonia com o mundo material. Mas conta-me, amigo, que posso eu fazer neste momento de perigosa objeção em que me encontro? Estou num abismo em que ou bem pulo e tento voar, ou bem pulo e caio, ou bem me prostro, estático, e deixo que morra em meu peito a incerteza da felicidade. É que tudo é tão incerto, digo. Tudo às vezes me parece tão nada, tão vazio, assim, sem esse Amor. Não de mim, nunca estive tão certo acerca do que quero e desejo, com forças que não sei de onde brotam, mas que pulsam como se a minha existência dependesse muito daquilo. Como se eu me cristalizasse a cada momento de distância e me libertasse toda a vez em que a encontrasse, com muita frequência, por sinal. Mais do que pensas, amigo. Quão prazeroso é me sentir dessa forma, tão adolescente! É um olhar tão profundo que me mata a cada vez que me ponho hipnotizado. Sim, são sinais que confundem também, de corpo inteiro, que me perde em sua pequenez, mas de um caráter que estimo grandioso e genial. E sua especialidade reside em ser tão únicos a ponto de me fazer desistir dos sonhos e viver pra onde e por onde meu Amor me levar. E esse futuro incerto me enlouquece quando tenho a certeza de que acordarei um dia e não mais terei esse meu estímulo maior. Dize-me, então, o que fazer, amigo Tom. E se me vires o amigo Moraes por essas bandas, conta-lhe desse meu Amor visceral, assunto bom de poesia. E que ela me traga mais papel pra que eu me sinta vivo.





