Acordei cedo na esperança de um dia bom. Bastaram apenas algumas horas, no entanto, para perceber que não o seria. No trabalho, nada de muito excepcional - alguns risos dissimulados e outras tantas palavras jogadas fora como embalagens recicláveis. Recicláveis! E amanhã será o mesmo, e no dia seguinte... e no dia seguinte. A vida segue nesse turnover eterno no mundo em que não sei que vivo. Esperei pelo metrô na estação. Era mais cedo que o previsto, muito tarde para arrependimentos. Arrependo-me por me arrepender disso. Joguei fora o papel, mas fiquei com o pensamento carregado de angústias e um sentimento que lentamente me corroía o âmago. Estava sozinho naquele momento. Presenciei a ira dos deuses a balançar galhos e a inundar rios de sangue. Eles penetraram minha rotina como num filme melodramático. Por um instante senti-me tão abençoado como se nada me pudesse atormentar. Fingi-me, porém, cego e surdo e pus o coração a frente da divina razão. Parei a pensar sobre o que me havia deixado naquele estado melancólico repulsivo. Não sabia o que queria, apenas queria tudo ao mesmo tempo. O metrô não chegava e aquela espera infinita me deixava cada vez mais deprimido. Olhava o papel no chão. Nada precisava ter acontecido, nada sequer acontecera. Tinha tudo para estar feliz, mas acontece que estava triste. Tomei o metrô. Deixei na estação tudo o que lembrava o passado obscuro e a vontade de persistir. Levei comigo apenas a carcaça oca do meu corpo ferido a borbulhar ácido pelos poros. Minha mente vazia imaginava tudo o que eu não queria imaginar. Poderia ser diferente, entretanto apenas escolho as portas erradas. Momentos eternos me duram segundos. Oh, divina Afrodite, já não mais sinto sua presença a iluminar meu caminho. Veleje oceano abaixo e siga a rota do arco-íris. Mantenha sua espuma enfeitiçada distante de mim e alimentai apenas os insaciáveis pelo beijo da vaidade. Já não mais tenho vocação para cárcere. A espera por seu presente inesperado esgotou-me o ego. Onde está o anjo que me prometeste? Estou cansado. Maltratado. Abusado. O maior dos pesadelos obtenho sonhando acordado. Acordo e durmo na escuridão. Roubaram-me as cores do mundo. Por que escrevo? Escrevemos? Talvez na esperança de sepultar a realidade tão fundo onde ninguém possa encontrá-la. Ou encontrá-la. Ilusões? Nada além disso. Nessa natureza onde nada se perde, nada ganho...ou não ganho aquilo que espero.
Igor
Igor
Um comentário:
Gostei,já tinha lido esse, só não sei bem pq não havia comentado...
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