
Falou suavemente. Suas mãos frígidas e delgadas deslizaram sobre as minhas, quentes e suadas. Fruto da adrenalina que me havia tomado o controle emocional. Estava abalado psicologicamente. No fundo imaginava que aquele adeus seria apenas o primeiro. Temia que fosse o último. No entanto disse-me que a esperasse, que precisava ir, que ainda voltava, que tinha adorado ter me conhecido. Esvaiu-se mundo afora. Frágil como sou, havia me apaixonado à primeira vista por alguém que sequer sabia o nome. Era sábado e como em todos os sábados à tarde, desde a frustrante partida de mamãe, estava sentado no banco da praia a contemplar a beleza de um mar que me encantava profundamente. Ela apareceu pela primeira vez. Sua pele morena e seus lisos e longos cabelos pretos não me despertaram interesse a princípio. Fingi não ter percebido a presença inesperada. E, cortando a solidão que me agradava, sentou-se a me fazer companhia. Ofereceu-me uma bala de morango que trazia em uma pequena bolsa. Olhei-a nos olhos. Disse que não, agradeci. Era linda. Fiquei hipnotizado por alguns instantes. Ela puxava assunto em um verdadeiro misto de amizade e amor que me contagiava aos poucos. Falava da beleza do dia. Eu não ouvia nada que não fosse tão somente o suave barulho das ondas a beijar as pedras da calçada. Sua voz era como o mais belo canto de uma sereia, que me despertava os sentimentos mais profundos. Eu já a amava. Voltei a mim mesmo. Pouco conversamos. Foi quando ela disse que tinha de ir. Adeus. Na sua ausência, uma súbita dor tomou conta de meu peito e nada tive a fazer senão permanecer no banquinho. Saudade? Não sei, mas fora a única a me dar atenção. Ninguém jamais havia parado a me falar. Serei eternamente grato por isso. Enquanto a tristeza violentamente me perfurava o coração, eu vi o nascer do sol por sete vezes. Precisava de um banho, trocar de roupa. A barba crescida e um estômago que berrava de fome. E ela ainda não havia voltado. Sete dias se somaram. Mas ali fiquei no mesmo lugar e dali não sairia. Não queria voltar pra casa e esquecer mais um dia feliz em minha vida, que já me são tão raros. Jurei a mim mesmo fidelidade ao sentimento. Sete dias, sete longos dias que não foram em vão. Na espera infinita, imaginava uma doce maneira de dizê-la tudo o que sentia. Louco que sou, romântico convicto e incurável . “Aqui estou, acordado do coma. Não cheguei a cavalo como esperavas e tão pouco tenho nos cabelos o dourado dos raios matutinos que beijam a tua face. Meu olhar não é azul como o mar que espelha a imensidão do sentimento que te dedico. Guardo-o comigo como lembrança de algo que é tão inocente e puro, na esperança de um dia perder o medo, de sepultá-lo com a mesma flecha que fui flechado. A mesma flecha que rasga meu coração e faz sentir a dor da tua ausência. Hoje sinto que tudo é apenas uma questão de tempo. Minha mente viaja, nada do que dizem me parece importante. Meu ego apenas me transporta para tua presença, ainda que imaginada, mas tão real e intensa. Tentando encontrar uma maneira inesquecível de dizer-te tudo o que me atormenta. Tudo que me leva o sono e o cansaço e me faz aqui permanecer. Sei que se dormisse, sonharia. Acordado, pensaria. Não lembro. Jamais esqueço. Tudo o que acima foi dito, cada palavra, é apenas um pedaço do meu coração que guardei pra você.” Ela não veio. Estava fatigado. Meu corpo, em pedaços. Assim como meu eu-lírico, frustrado. Eis que no oitavo dia, momento em que já me preparava para ir embora, ela apareceu. Acompanhada. Suas mãos delgadas que outrora se entrelaçaram às minhas estavam agora em volta dele, abraçando-o. Irmão? Pai? Pensei. Ela me viu. Beijou-me a bochecha. Amigo de um dia. Apresentou-me ao sujeito. Namorado. Faziam naquele sábado três anos de relacionamento. Sorri uma lágrima. Cumprimentei o casal, que ficou horas a namoricar no banquinho, em minha presença. E mais uma vez ela se foi. A lembrança de sua mão acenando um adeus deixou-me a certeza de que esse sim seria o último. Mais uma desilusão amorosa. Era hora de ir pra casa. Recomeçar. Imaginar que o passado não passa de páginas desbotadas no cômico livro da vida. Levantei. Pernas fracas. Peguei o guarda-chuva e segui meu rumo protegendo-me da ira dos deuses que choravam minha tristeza.
Igor