E se o amor é cego, comprar-me-ei uma bengala.
Que bengala! Que nada!
Soltarei a mão dele quando estiver a ajudá-lo a atravessar a rua.
Se alguém pode morrer por amor, pode ser salvo pelo ódio.
sábado, 11 de outubro de 2008
quinta-feira, 31 de julho de 2008

Amanhã não mais haverá poesia. Proibir-me-ão o sorriso e as lágrimas. A carcereira roubou-me Pessoa. Apresentou-me Linhares e uns complexos que secretavam. Queria eu poder fazê-lo. Despacharia logo o coração pra uma galáxia distante. Reduzido à vala comum dos desvalidos, esquálido. Assim me sinto. Tenho um desmesurado ego que não cabe nesta cela. Perco o dia a sensacionalizar sua figura. Ganhei a noite e algumas olheiras. Espero que receba a carta que te envio desta vez. Das oito outras, só obtive resposta em uma. Ainda guardo a que me escrevera com tanto carinho. Palavras bonitas, letras em vermelho. Leio toda noite antes de deitar. É o que me tem motivado a viver. Tenho estado num estágio sócio-psicótico de loucura avançada. Por mais que eu tente coexistir de forma aprazível, tudo é algo que me consome. Era penoso acreditar que o "i" desenhado naquele coração não era o meu. Alguns me criticam por ser tão introspectivo. Talvez eu não seja intelectual o suficiente pra filosofar, citar Platão, Aristóteles, debater acerca do martírio de Tiradentes ou escrever um drama tão lastimoso quanto o de Heathcliff e Catherine. Mas é que já me falta siso. Fruto de uma geração auto-intitulada pós-modernista líquida, sou auto-destrutivo. É importante acostumar-se a conviver com pungências alheias. Só quero que entenda que sou apenas eu. Minha prisão foi proposital, tenho tentado fugir. Nada acontece em especial. Tudo, tudo me é previsível. Castelos e castelos. Espero um dia construí-los à base de tijolos, assim...compacto. Talvez um dia eu acabe esse monólogo. Tenho de vender minha bengala. Quero uma córnea, preciso de um transplante. Tudo o que agora me resta é sentar e esperar a hora de tocar minha harpa ao lado de São Pedro. Mas não se esqueça da bomba. Da bomba de sangue no meu peito. E nunca se esqueça de quanto a amo. Deixe o futuro pra nós. Caso eu sobreviva esse presente de coadjuvante.
domingo, 27 de julho de 2008
Frívolo
Com o que nessa vida vou eu me importar
Se nem um beco tenho pra olhar?
Ao menos ainda ouço o eco das paredes.
Se nem um beco tenho pra olhar?
Ao menos ainda ouço o eco das paredes.
domingo, 16 de março de 2008
Tristezas de sábados à tarde

Falou suavemente. Suas mãos frígidas e delgadas deslizaram sobre as minhas, quentes e suadas. Fruto da adrenalina que me havia tomado o controle emocional. Estava abalado psicologicamente. No fundo imaginava que aquele adeus seria apenas o primeiro. Temia que fosse o último. No entanto disse-me que a esperasse, que precisava ir, que ainda voltava, que tinha adorado ter me conhecido. Esvaiu-se mundo afora. Frágil como sou, havia me apaixonado à primeira vista por alguém que sequer sabia o nome. Era sábado e como em todos os sábados à tarde, desde a frustrante partida de mamãe, estava sentado no banco da praia a contemplar a beleza de um mar que me encantava profundamente. Ela apareceu pela primeira vez. Sua pele morena e seus lisos e longos cabelos pretos não me despertaram interesse a princípio. Fingi não ter percebido a presença inesperada. E, cortando a solidão que me agradava, sentou-se a me fazer companhia. Ofereceu-me uma bala de morango que trazia em uma pequena bolsa. Olhei-a nos olhos. Disse que não, agradeci. Era linda. Fiquei hipnotizado por alguns instantes. Ela puxava assunto em um verdadeiro misto de amizade e amor que me contagiava aos poucos. Falava da beleza do dia. Eu não ouvia nada que não fosse tão somente o suave barulho das ondas a beijar as pedras da calçada. Sua voz era como o mais belo canto de uma sereia, que me despertava os sentimentos mais profundos. Eu já a amava. Voltei a mim mesmo. Pouco conversamos. Foi quando ela disse que tinha de ir. Adeus. Na sua ausência, uma súbita dor tomou conta de meu peito e nada tive a fazer senão permanecer no banquinho. Saudade? Não sei, mas fora a única a me dar atenção. Ninguém jamais havia parado a me falar. Serei eternamente grato por isso. Enquanto a tristeza violentamente me perfurava o coração, eu vi o nascer do sol por sete vezes. Precisava de um banho, trocar de roupa. A barba crescida e um estômago que berrava de fome. E ela ainda não havia voltado. Sete dias se somaram. Mas ali fiquei no mesmo lugar e dali não sairia. Não queria voltar pra casa e esquecer mais um dia feliz em minha vida, que já me são tão raros. Jurei a mim mesmo fidelidade ao sentimento. Sete dias, sete longos dias que não foram em vão. Na espera infinita, imaginava uma doce maneira de dizê-la tudo o que sentia. Louco que sou, romântico convicto e incurável . “Aqui estou, acordado do coma. Não cheguei a cavalo como esperavas e tão pouco tenho nos cabelos o dourado dos raios matutinos que beijam a tua face. Meu olhar não é azul como o mar que espelha a imensidão do sentimento que te dedico. Guardo-o comigo como lembrança de algo que é tão inocente e puro, na esperança de um dia perder o medo, de sepultá-lo com a mesma flecha que fui flechado. A mesma flecha que rasga meu coração e faz sentir a dor da tua ausência. Hoje sinto que tudo é apenas uma questão de tempo. Minha mente viaja, nada do que dizem me parece importante. Meu ego apenas me transporta para tua presença, ainda que imaginada, mas tão real e intensa. Tentando encontrar uma maneira inesquecível de dizer-te tudo o que me atormenta. Tudo que me leva o sono e o cansaço e me faz aqui permanecer. Sei que se dormisse, sonharia. Acordado, pensaria. Não lembro. Jamais esqueço. Tudo o que acima foi dito, cada palavra, é apenas um pedaço do meu coração que guardei pra você.” Ela não veio. Estava fatigado. Meu corpo, em pedaços. Assim como meu eu-lírico, frustrado. Eis que no oitavo dia, momento em que já me preparava para ir embora, ela apareceu. Acompanhada. Suas mãos delgadas que outrora se entrelaçaram às minhas estavam agora em volta dele, abraçando-o. Irmão? Pai? Pensei. Ela me viu. Beijou-me a bochecha. Amigo de um dia. Apresentou-me ao sujeito. Namorado. Faziam naquele sábado três anos de relacionamento. Sorri uma lágrima. Cumprimentei o casal, que ficou horas a namoricar no banquinho, em minha presença. E mais uma vez ela se foi. A lembrança de sua mão acenando um adeus deixou-me a certeza de que esse sim seria o último. Mais uma desilusão amorosa. Era hora de ir pra casa. Recomeçar. Imaginar que o passado não passa de páginas desbotadas no cômico livro da vida. Levantei. Pernas fracas. Peguei o guarda-chuva e segui meu rumo protegendo-me da ira dos deuses que choravam minha tristeza.
Igor
A digestão mal-feita de Sergipe
Do sorriso fez-se a melancolia. Da eterna repulsa, uma alma obscura que vaga à procura de sua felicidade. Ou apenas vagava. Às vezes converso comigo mesmo na solidão, entretanto ninguém me dá a atenção que espero. Às vezes tento agir, mas o medo me impede de ser feliz ou apenas adia o momento de minha infelicidade. Fui ensinado a lutar contra isso. Nunca fui, porém, um bom aluno. Aah, essa minha maldita teimosia! Fez-se, então, o pranto. Refaço-me em essência e a plena consciência de que seria patético se não fosse tão pateta traz à tona a convicção do abandono da esperança. Sou apenas mais um louco cortinado a olhares alheios. Um preguiçoso à espera de algum acontecimento que me faça movimentar, agir de alguma forma. Talvez eu seja feliz e tamanha felicidade encarcerada em meu ego apenas anseie por liberdade, tal qual um grito seco à procura de submersão em uma poça que é profunda e poluída. Sinceramente não sei. Essas dúvidas me matam. E como a mão do afogado que brada por socorro, imagino o mundo minha própria criação. Faço-lhe espelho de minhas angústias e incertezas sobre o que se é viver. Não, nunca estive alto. Tenho medo da queda. Espero quando anjo poder superar tamanho trauma mundano. Vivo de sonhos e o amanhã nunca parece chegar. Já lancei minhas palavras e emoções num barco sem rumos. Espero ansiosamente pela sua chegada em algum lugar. Notícias de onde andam. Ou tenha talvez o vento as levado ao destino errado e eu não percebi. A cada novo dia certifico-me da fragilidade que invade meu ser, canalha que sou. Somos, já dizia um amigo. Vinícius que me desculpe, mas nada se é infinito quando nele não se acredita. Eu acredito. E o que me põe mais triste é a maneira das pessoas negligenciarem o coração. Perdoe-me, Camões, mas...eu sinto. E dói muito, queima-me a alma. Trago comigo cicatrizes marcadas em carne viva. Parasitas injetam o veneno do amor em minhas veias. Em sua posição privilegiada, somente a Lua parece ouvir meus questionamentos, minhas lamentações. No escuro da noite, ela ilumina as minhas idéias, que estão em constante mudança. Dá-me forças para tentar mais uma vez, embora muitas vezes pareça se esconder, cansada de minha mecânica e repetitiva vida. Castelos de areia destruídos por ondas de lágrimas e sofrimento cada vez mais agressivas. Tenho em mim o pecado de ser um medieval no mundo moderno. De não buscar o convencional, e sim o incondicional. Vejo promessas de eternidade ruírem em meses e tudo o que era pra sempre jamais existiu. Lamento muito por coisas boas não serem eternas. Mas penso no amor como uma exceção. O mais belo presente dos deuses. Eterno. E enquanto não nos for confiscado o direito de devanear, quero poder estar em vários lugares. Com ela. Sem ela. Tanto faz. Estou anestesiado. Houve um tempo em que vivia à base de futuros do pretérito. Vinculava as minhas atitudes a um “se” carregado de dúvidas e enigmas complexos. O sentimento do estar me valia mais que o orgulho próprio e a mania de sempre acreditar no que queria acreditar me corroía aos poucos. Não mudei. Sequer mudarei. Continuo o mesmo. Porém, com receio de ser como era antes. Apenas quero conjugar o Verbo no Infinito. Você pode não entender o que acima foi dito. Então sente-se a mesa do desilusionado e tome um gole da verdade antes ocultada pela sua sanidade irracional.
Igor
Igor
Primeira ilusão.
Acordei cedo na esperança de um dia bom. Bastaram apenas algumas horas, no entanto, para perceber que não o seria. No trabalho, nada de muito excepcional - alguns risos dissimulados e outras tantas palavras jogadas fora como embalagens recicláveis. Recicláveis! E amanhã será o mesmo, e no dia seguinte... e no dia seguinte. A vida segue nesse turnover eterno no mundo em que não sei que vivo. Esperei pelo metrô na estação. Era mais cedo que o previsto, muito tarde para arrependimentos. Arrependo-me por me arrepender disso. Joguei fora o papel, mas fiquei com o pensamento carregado de angústias e um sentimento que lentamente me corroía o âmago. Estava sozinho naquele momento. Presenciei a ira dos deuses a balançar galhos e a inundar rios de sangue. Eles penetraram minha rotina como num filme melodramático. Por um instante senti-me tão abençoado como se nada me pudesse atormentar. Fingi-me, porém, cego e surdo e pus o coração a frente da divina razão. Parei a pensar sobre o que me havia deixado naquele estado melancólico repulsivo. Não sabia o que queria, apenas queria tudo ao mesmo tempo. O metrô não chegava e aquela espera infinita me deixava cada vez mais deprimido. Olhava o papel no chão. Nada precisava ter acontecido, nada sequer acontecera. Tinha tudo para estar feliz, mas acontece que estava triste. Tomei o metrô. Deixei na estação tudo o que lembrava o passado obscuro e a vontade de persistir. Levei comigo apenas a carcaça oca do meu corpo ferido a borbulhar ácido pelos poros. Minha mente vazia imaginava tudo o que eu não queria imaginar. Poderia ser diferente, entretanto apenas escolho as portas erradas. Momentos eternos me duram segundos. Oh, divina Afrodite, já não mais sinto sua presença a iluminar meu caminho. Veleje oceano abaixo e siga a rota do arco-íris. Mantenha sua espuma enfeitiçada distante de mim e alimentai apenas os insaciáveis pelo beijo da vaidade. Já não mais tenho vocação para cárcere. A espera por seu presente inesperado esgotou-me o ego. Onde está o anjo que me prometeste? Estou cansado. Maltratado. Abusado. O maior dos pesadelos obtenho sonhando acordado. Acordo e durmo na escuridão. Roubaram-me as cores do mundo. Por que escrevo? Escrevemos? Talvez na esperança de sepultar a realidade tão fundo onde ninguém possa encontrá-la. Ou encontrá-la. Ilusões? Nada além disso. Nessa natureza onde nada se perde, nada ganho...ou não ganho aquilo que espero.
Igor
Igor
sábado, 15 de março de 2008
Nada como um belíssimo texto do imortal poetinha do Brasil para iniciar o blog:
Os acrobatas
Subamos!
Subamos acima
Subamos além, subamos
Acima do além, subamos!
Com a posse física dos braços
Inelutavelmente galgaremos
O grande mar de estrelas
Através de milênios de luz.
Subamos!
Como dois atletas
O rosto petrificado
No pálido sorriso do esforço
Subamos acima
Com a posse física dos braços
E os músculos desmesurados
Na calma convulsa da ascensão
Oh, acima
Mais longe que tudo
Além, mais longe que acima do além!
Como dois acrobatas
Subamos, lentíssimos
Lá onde o infinito
De tão infinito
Nem mais nome tem
Subamos!
Tensos
Pela corda luminosa
Que pende invisível
E cujos nós são astros
Queimando nas mãos
Subamos à tona
Do grande mar de estrelas
Onde dorme a noite
Subamos!
Tu e eu, herméticos
As nádegas duras
A carótida nodosa
Na fibra do pescoço
Os pés agudos em ponta.
Como no espasmo.
E quando
Lá, acima
Além, mais longe que acima do além
Adiante do véu de Betelgeuse
Depois do país de Altair
Sobre o cérebro de Deus
Num último impulso
Libertados do espírito
Despojados da carne
Nós nos possuiremos.
E morreremos
Morreremos alto, imensamente
IMENSAMENTE ALTO.
Vinícius de Moraes
Os acrobatas
Subamos!
Subamos acima
Subamos além, subamos
Acima do além, subamos!
Com a posse física dos braços
Inelutavelmente galgaremos
O grande mar de estrelas
Através de milênios de luz.
Subamos!
Como dois atletas
O rosto petrificado
No pálido sorriso do esforço
Subamos acima
Com a posse física dos braços
E os músculos desmesurados
Na calma convulsa da ascensão
Oh, acima
Mais longe que tudo
Além, mais longe que acima do além!
Como dois acrobatas
Subamos, lentíssimos
Lá onde o infinito
De tão infinito
Nem mais nome tem
Subamos!
Tensos
Pela corda luminosa
Que pende invisível
E cujos nós são astros
Queimando nas mãos
Subamos à tona
Do grande mar de estrelas
Onde dorme a noite
Subamos!
Tu e eu, herméticos
As nádegas duras
A carótida nodosa
Na fibra do pescoço
Os pés agudos em ponta.
Como no espasmo.
E quando
Lá, acima
Além, mais longe que acima do além
Adiante do véu de Betelgeuse
Depois do país de Altair
Sobre o cérebro de Deus
Num último impulso
Libertados do espírito
Despojados da carne
Nós nos possuiremos.
E morreremos
Morreremos alto, imensamente
IMENSAMENTE ALTO.
Vinícius de Moraes
Assinar:
Postagens (Atom)